domingo, 3 de julho de 2011

Cumplicidade

O que são as pessoas ou como elas são além da nossa imagem sobre elas?

Sr. Motorista, casado, pai de dois filhos (na verdade são três, mas eu queria que fosse dois). Acordou cedo para conduzir a linha de ônibus Campo Grande.

Sr. José, casado, pai de cinco filhos, avô de 10 netos. Casado com D. Maria há 55 anos. Acordou cedo para tomar o ônibus Campo Grande.

Juliana, casada, sem filhos. Acordou cedo para tomar o ônibus Caixa D'Água.

Sr. José resmungava. Esse ônibus que não chega! passou ainda agora do lado de lá e não chega! Juliana, em dúvida... Será que passa aqui? PASSA! disse Sr. José. Bla, bla, bla... (Juliana não entendeu mais nada do que ele falou).

O ônibus Campo Grande aponta no horizonte. É ele! exclamou Juliana. Demorou mais um pouco e Sr. José também identificou o ônibus.

Sr. Motorista abre a porta do veículo. O ilustre passageiro arrumar seu chapéu, comprado em uma feira 30 anos atrás, e solta algumas palavras ao condutor sobre a demora na linha. Sr. Motorista sorri e olha para Juliana e sorri o sorriso dos cúmplices... compreensivo e irônico.

O ônibus Caixa D'água queimou a parada... Filha da puta do motorista!

domingo, 19 de junho de 2011

As Ruas


As ruas molhadas
De lágrimas
De olhos vermelhos e tristes
De fome

Pernas e mãos
Raquíticas
Andando nessas ruas
Formam populações
Nos belos campos
De pedra e jardins
De agulha

O asfalto duro
De descaso
Transpiram vapores
Ácidos
Que corroem os pés
Daqueles que não os têm

— Menino, calça o chinelo !
— Parado aí, senão eu atiro ...

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Conhecimento Prudente para uma Vida Decente


“Não: não quero nada! Já disse que não quero nada. / Não me venham com conclusões! / A única conclusão é morrer. Não me tragam estéticas! / Não me falem em moral! / Tirem-me daqui a metafísica! / Não me apregoem sistemas completos, não me enfilerem conquistas / Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) / Das ciências, das artes, da civilização moderna!”. (Trecho poesia ‘Lisbon Revisited (1923)’ de Fernando Pessoa)

Fernando Pessoa considerava Rosseau um “misantropo amoroso da humanidade” (Escritos Íntimos 19). A admiração pelo filósofo fez com que o poeta antecipasse, em linguagem livre, meus sentimentos . Quais são, finalmente, as conquistas das ciências, das artes e da civilização moderna? Um pergunta simples cuja resposta é o cerne da crise da ciência moderna.

A racionalidade científica do século XVIII aderiu a predicados que romperam com formas de conhecimento anteriores. Na ânsia de controlar os fenômenos naturais, o homem perdeu a confiança na sua percepção e desenvolveu métodos e regras para revelar verdades. O método positivista dominou a ciência com seus modelos matemáticos. Neste momento, o objetivo da ciência não era apenas resolver um problema humano ou entender um fenômeno natural, mas descobrir formas de controlá-lo.

O paradigma dominante da ciência moderna alcançou os fenômenos sociais. A lógica era simples: se a ciência moderna revelava verdades sobre os fenômenos naturais, da mesma forma ela poderia revelar verdades sobre os fenômenos sociais. Contudo, logo foi reivindicada uma nova epistemologia e metodologia para as ciências sociais, pois os fenômenos estudados possuíam duas variáveis difíceis de serem controladas: a cultura e a aprendizagem do homem.
A crise epistemológica da ciência moderna nasceu no seu próprio seio (ironia, mas que de certa forma legitimou a crise). Boaventura apontou quatro “descobertas” da ciência ocidental moderna que foram pontos de inflexão para a crise: a relatividade da simultaneidade; a mecânica quântica; a relativização do rigor matemático; e os conhecimentos em microfísica. Tais estudos questionaram profundamente as bases da racionalidade científica e engatilharam a crise da ciência moderna. O rompimento do que Boaventura chamou de “Paradigma Dominante” era inevitável.
Esses impasses já eram discutidos dentro do desenvolvimento das ciências sociais. Por isso, a discussão antes marginalizada da epistemologia das ciências sociais tornou-se relevante para a ciência como um todo. Para Boaventura, a partir de então, surge um novo espaço para a construção de um novo paradigma para a ciência.


Apesar de Boaventura considerar esse novo paradigma uma especulação, ele o nomeou de “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente”. Nele, sintetiza-se o que a ciência moderna ignorou ou estudou de forma inacabada e que acredito ser um novo paradigma da ciência que pode ainda salvar-nos da ciência moderna: a 1) comunidade (nas dimensões de participação e solidariedade) e a 2) racionalidade estético-expressiva (nas dimensões de prazer, autoria e artefactualidade discursiva), 3) conhecimento-emancipação não linear, não controlável (nem em suas causas e muito menos conseqüências); a 4) hermenêutica da suspeição (prudência nas afirmações e foco nas conseqüências inesperadas do fenômeno); o 5) reconhecimento que a ação do homem interfere no fenômeno e por isso não se pode separar natureza e cultura; a 6) aproximação da linguagem científica da linguagem literária e artística.

Boaventura antevê que toda ciência será ciência social por que os fenômenos naturais guardam em si características dos fenômenos sociais. Eu acredito nele. Se no seu desenvolver a ciência construir um novo paradigma próximo ao conhecimento prudente para uma vida decente, num encontro futurista impossível, Fernando Pessoa e Rosseau se cumprimentariam e sorririam em grande satisfação, pois seus legados seriam eternizados.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Cadernos

Árvores e rochas duras e verdes.
Num clima humilde
Em torno da futilidade

Peles e rostos bonitos.
Onde está a inteligência?
Nos cadernos.
Fechados.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Recuperação reflexiva e meus diários

Agradeço a Deus pelos pais que tenho todos os dias. Uma coisa, em especial, eles fizeram por mim: tornaram os livros o melhor presente que poderiam me dar. Recordo-me de várias coleções de histórias infantis e das tardes lendo e relendo as mesmas histórias incansavelmente. Devorava os livros didáticos do primeiro e segundo grau. Apaixonei-me por Machado de Assis e mantemos uma relação sólida até hoje. Na universidade, conheci Fernando Pessoa e desde então tenho dois amores.

Minha paixão pela leitura refletiu-se em diários. Escrevi dezenas deles e os tenho guardado até hoje. Adoro esbarrar com eles na minha arrumação anual e ela dura mais tempo por que me encontro lá, nos diários e nas minhas experiências que me levaram até aqui.

Por falar em minhas experiências… tive uma impactante há um par de anos. Era a terceira ou quarta aula da disciplina de Introdução a Administração com Professora Lílian Outtes, primeira disciplina que paguei no Mestrado em Administração, em Fevereiro de 2007. Uma hora dessa aula ia ser preenchida com uma palestra de Pedro Lincoln. Nossa! Fiquei feliz… já havia lido algumas coisas de Prof. Pedro e sempre gostei muito. Certamente a aula ia ser brilhante. 

Prof. Pedro nos solicitou um trabalho prévio. As orientações eram claras: “Faça uma recuperação reflexiva de sua experiência anterior. Respondendo às quatro questões: Qual tem sido, realmente, minha trajetória profissional ou escolar/acadêmica? Quais os pontos de contato mais fortes dela com o restante de minha experiência pessoal? O que trago, objetivamente (sem muito wishfull thinking) desse meu passado para essa nova fase? Quais as dúvidas mais de fundo sobre o tipo de conhecimento que espero encontrar aqui?”.

Respirei fundo e escrevi cinco páginas, espaço simples. Passei dois dias pensando e uma noite inteira escrevendo. Caprichei na formatação, imprimi o trabalho e estava pronta! Agora só faltava entregá-lo ao Professor!

Na aula, Prof. Pedro começou a falar sobre ‘experiência’. Falou do sentido semântico, do sentido pragmático, do senso comum, do sentido que cada um deu durante a exposição do seu caso. Fiquei calada… quem me conhece, sabe que isso é quase uma obra do espírito santo. As palavras de Prof. Pedro faziam sentido e não faziam ao mesmo tempo. Ele é capaz de fazer isso. Não sabia o que dizer… parecia bobo tudo que eu pensava. Neste ponto da aula, já estava desanimada. Minha auto avaliação do trabalho passou de A a D em uma hora. 

Nos ‘finalmentes’ da aula, não conseguia entender nem exprimir o que era experiência em qualquer sentido que fosse; Prof. Pedro, então, fez o fechamento. Não me recordo das palavras exatas, mas ele disse mais ou menos o seguinte. “Experiência é como comida.” Eu ri. Pronto! Tudo que eu não estava entendendo transformou-se em ‘comida’, nas simples palavras do Prof. Pedro. Ele continuou: “Você toma café-da-manhã, come o pão, a manteiga, uma maçã, bebe o leite, açúcar e café. Em seguida você vai fazer exercícios físicos. Começa a correr. As calorias que você está gastando estava no açúcar ou na fruta? No pão ou na manteiga? Não sabemos. Da mesma forma é a experiência. Você não sabe de onde veio, mas ela está aí, dentro de você. Há como dar valor a cada uma delas?” Ele deu bom dia e saiu. Eu fiquei pasma. Paralisada, com o trabalho na mão. Que metáfora! Que fechamento!

A experiência sobre minha experiência foi impactante. Foi o primeiro passo dos primeiros seis meses em que me percebi mudar mais.

Nos últimos dois anos, não li meus diários. Hoje, ocupo-me em ler minhas reflexões, seminários, resumos, resenhas e artigos do mestrado. Leio e discordo de mim, concordo comigo, acho engraçado. 

Mas sou EU ali, assim como nos meus diários. Eles só mudaram de formato, como eu. 

É isso, aprender a SER é assim. No fim da viagem, voltaremos ao ponto de partida e teremos a impressão de vê-lo pela primeira vez. (Frase adaptada de T.S. Eliot).

(escrito em Julho de 2009)

Do que tratará este blog?

A missão desse blog é facilitar a minha missão. Descobri que vim ao mundo para ensinar, aprender e ser (não necessariamente nesta ordem... enfim, nem sei qual a ordem certa) e vejo uma boa oportunidade de perenizar essa missão por meio de um blog.

Vou compartilhar textos próprios, que tratam das coisas da vida; como não tenho mais a ilusão da desconexão entre os papéis, talvez seja um bom retrato público do ser Judapaz.